sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Quem quer ser crítico de cinema?


A três dias da entrega dos Óscares de Hollywood, a pergunta que se deveria fazer era: “Quem Quer Ser Bilionário, de Danny Boyle, vai ser o grande vencedor da noite dos Óscares?”. No entanto, a pergunta que mais se ouve por cá é outra: “Quem Quer Ser Bilionário é ou não um bom filme?”. No domingo Quem Quer Ser Bilionário vai decerto ganhar três dos principais prémios da Academia – melhor filme, realizador e argumento adaptado. Mas será isso suficiente para atenuar a discussão que entretanto se criou sobre as qualidades cinematográficas e ideológicas do filme de Danny Boyle? Espero que não.

Não me lembro de alguma vez um filme “unânime” (isto é, favorito dos Óscares) ter dividido tanto aqueles que sobre ele escrevem. Antigamente a crítica estava confinada aos críticos. Tínhamos o Expresso, o Diário de Notícias, o Semanário e mais tarde O Independente e Público. Hoje basta criar um blog para se publicar meia dúzia de disparates sobre cinema – e sobre a respectiva classe crítica. Classe essa que, por não estar sindicalizada, não se pode defender em bloco.

Mas não se pense que a balcanização dos críticos de cinema diminuiu o valor do debate público (e neste caso publicável). Basta ver o que se tem escrito sobre Quem Quer Ser Bilionário nos blogs de Luís Miguel Oliveira (As Aranhas), João Lopes (Sound+Vision) ou Bruno Nogueira (Corpo Dormente) para se perceber que o espectáculo vai continuar – muito depois do filme ganhar os Óscares que tiver de ganhar.

A discussão inflamou esta semana quando Bruno Nogueira, que não é crítico de cinema mas comediante, decidiu criticar os críticos que disseram mal do filme por si adorado – Quem Quer Ser Bilionário. “Ser crítico de cinema só obedece a uma regra básica: dizer mal daquilo que está em alta. Há qualquer coisa de intelectual em contradizer as massas”. Bruno Nogueira falava contra os críticos Luís Miguel Oliveira, do Público, e Vasco Baptista Marques, do Expresso, que arrasaram Quem Quer Ser Bilionário.

No blog Sound+Vision, o sempre esclarecido João Lopes, que já foi crítico do Público e do Expresso, picou o debate. “De que massas está Bruno Nogueira a falar? Das massas que em 1932 deram a vitória ao partido nazi? Das que transformam Quem Quer Ser Milionário num fenómeno de bilheteira? Como é que muitos bilhetes vendidos produzem uma ideia?”.

Bruno Nogueira, que tem razões de sobra para defender a sua “dama”, cometeu um erro: aliou-se às massas. Contra a balcanização, armou-se em Santana Lopes. Ao sugerir que todos os espectadores que fizeram o sucesso de Quem Quer Ser Bilionário (as massas) pensam o filme da mesma maneira, ele está apenas a ofender o livre arbítrio das massas. Pior, está a fazer das massas puré. Ele está mesmo a pedir para lhe darem na cabeça.
(Publicado no Jornal METRO de 20 Fevereiro 2009)

7 comentários:

Veruska disse...

Independentemente de todas as polémicas, críticas e afins, o filme continua a ser, pelo menos para mim, simplesmente fantástico.

Desde que o vi, já por várias vezes o relembrei, o elogiei em vários aspectos, reflecti sobre a sua temática em conjunto com outras pessoas e no outro dia até no Fátima Lopes o debatiam!

Não será isto o que se pretende de um "produto cultural"? Não há pachorra para filmes do mais erudito que há que quase ninguém vê e que não leva a qualquer tipo de reflexão!

(Eu até estou à vontade para falar, porque até gosto dos filmes do Manoel de Oliveira.)

Anónimo disse...

A critica é sempre uma discussão decepcionante. Não há um critico em Portugal que consiga fazer uma verdadeira critica para além da simples atribuição do exercício inexpressivo e diletante do seu gosto pessoal o João Lopes seja o único que procure um quadro conceptual e analítico, mas as suas referências e coordenadas estão há muito tempo equivocadas. Já que se falam de "massas", evocando de uma forma algo falaciosa o regime Nazi, gostava de denunciar outros critérios de "massas". Não há um destaque da critica que não seja objecto de um "suborno" (viagem, prendas, trocas de regalias) dos distribuidores. A critica par ser idónea não basta querer ser tem que o parecer. Eu não acredito numa critica que não têm frontalidade e capacidade para denunciar e rejeitar este "tráfico de influências" de décadas. Socialmente trata-se de corrupção. A critica poderia rever e "criticar" alguma das suas formulações actuais: os princípios éticos, o rigor e a qualidade intelectual.

Anónimo disse...

A critica é sempre uma discussão decepcionante. Não há um critico em Portugal que consiga fazer uma verdadeira critica para além da simples atribuição do exercício inexpressivo e diletante do seu gosto pessoal o João Lopes seja o único que procure um quadro conceptual e analítico, mas as suas referências e coordenadas estão há muito tempo equivocadas. Já que se falam de "massas", evocando de uma forma algo falaciosa o regime Nazi, gostava de denunciar outros critérios de "massas". Não há um destaque da critica que não seja objecto de um "suborno" (viagem, prendas, trocas de regalias) dos distribuidores. A critica par ser idónea não basta querer ser tem que o parecer. Eu não acredito numa critica que não têm frontalidade e capacidade para denunciar e rejeitar este "tráfico de influências" de décadas. Socialmente trata-se de corrupção. A critica poderia rever e "criticar" alguma das suas formulações actuais: os princípios éticos, o rigor e a qualidade intelectual.

Veruska disse...

Independentemente de todas as polémicas, críticas e afins, o filme continua a ser, pelo menos para mim, simplesmente fantástico.

Desde que o vi, já por várias vezes o relembrei, o elogiei em vários aspectos, reflecti sobre a sua temática em conjunto com outras pessoas e no outro dia até no Fátima Lopes o debatiam!

Não será isto o que se pretende de um "produto cultural"? Não há pachorra para filmes do mais erudito que há que quase ninguém vê e que não leva a qualquer tipo de reflexão!

(Eu até estou à vontade para falar, porque até gosto dos filmes do Manoel de Oliveira.)

Daniel Silva disse...

Gosto muito do João Lopes sim. E O lauro António, que tem um blogue...

Miguel Somsen disse...

Um amigo meu, com toda a razão, explicava-me que o João Lopes parece sempre uma espécie de provedor dos leitores (neste caso dos críticos). A opinião dele é quase sempre demasiado branda ou politicamente correcta para ser confundida com a realidade. O que ele devia era ter dado uns calduços ao Bruno Nogueira e encerrava-se mais um assunto na blogosfera. Se alguma coisa nos move é a porrada!

Lek disse...

Não querendo ser advogado de defesa do Bruno Nogueira, acho que o que ele quis, quando atacou os críticos de cinema, foi denunciar essa tendência que eles têm para não alinhar pelo mainstream, pelo pensamento maioritário ou pela apreciação mais generalizada. E isso, meus amigos, é "a" crítica que temos. Sinceramente, já não há cu.