sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A Praça do Comércio ou o Terreiro de Paço?


Quando a maioria das pessoas não sabe que nome há-de dar a uma das principais praças (ou terreiros) do país, eu acho que já não há grande solução que possa vir a salvar a Praça do Comércio. E o mesmo se pode dizer do Terreiro do Paço.

Há um mês, a Praça fechou para obras de saneamento. Hoje, as obras de saneamento já conseguiram desviar as habitualmente afuniladas linhas de trânsito ascendente e descente, as mesmas que António Costa planeia limitar quando, um dia, as obras finalmente terminarem. “Nove meses”, dizem eles. “Dois anos”, lê-se noutro jornal.

É irrelevante o tempo que mais uma vez se irá perder no terreno: o que sabemos é que a promessa demagógica de devolver a Praça à cidade (e aos 52 lisboetas que nela vivem) virá inevitavelmente alimentar os discursos eleitorais da próxima rentrée. Portanto ou a Praça reabre em Setembro, a tempo das autárquicas, ou fica fechada até 2012, para o deixa-andar do segundo mandato de António Costa.

Pessoalmente, não gosto da Praça do Comércio. E o mesmo se pode dizer do Terreiro do Paço. É verdade que a Praça não existe para agradar ao senhor cronista das sextas feiras no Metro. Mas, por generosidade minha, gostaria de pensar que ela tem um propósito mais abrangente, ou que alguém saberá um dia encontrar a sua razão de ser. Talvez as obras sirvam para definir finalmente a sua personalidade, porque até hoje nada.

Há vinte anos, a minha mãe estacionava ali todos os dias o carro sem dizer água-vai, e limitava-se a deixar uma moeda a quem lhe encontrava um lugar. Depois, o “vergonhoso parque ilegal” passou a ser um “vergonhoso parque oficial”, nunca impedindo o devido caos e a trindade. Desde que tiraram dali os carros, a Praça do Comércio esvaziou-se de conteúdo.

Seria o seu desígnio tornar-se numa espécie de Foz Côa de Lisboa? Os políticos acham que não, e procuram as soluções mais rocambolescas para levantar aquilo do chão: desde a maior árvore de Natal do mundo até às rolotes de António Costa, é um ver-se-te-avias de animação fricolé e plasticidade industrial. Até hoje, a única coisa que a Praça do Comércio nunca conseguiu ter foi genuína vida vivida. E o mesmo se pode dizer do Terreiro do Paço.

No último fim de semana antes das obras, em Janeiro, fui finalmente ao local do crime ver a animação que levava a edilidade a limitar o trânsito rodoviário na zona. Meia dúzia de serviços de pipocas e farturas, umas dezenas de visitantes de circunstância , e a esperada deriva institucional de um pólo de convergência que parece divergir em todos os seus aspectos ideológicos. O que eu preferia é que as actuais obras de saneamento servissem também para sanear todos aqueles que planeiam para a Praça do Comércio um “comércio” que ela não tem. E o mesmo se pode dizer do Terreiro do Paço.

(Publicado no Jornal METRO de 6 Fevereiro 2009)

1 comentário:

Daniel Silva disse...

Lêem-se sempre estas preciosidades nos jornais gratuitos apesar de eu gostar mais do Destak.