terça-feira, 17 de março de 2009

Será Coraline um filme de crianças para adultos?


É provável que a polémica Coraline (ver texto em baixo, Os Espectáculos) vá mais uma vez cair em saco rôto. Mas pelo menos a mensagem chegou aos principais envolvidos:

A Comissão de Classsificação de Espectáculos (CCE), que respondeu tardiamente ao mail que eu lhe tinha enviado uma semana antes (portanto tarde demais para ser considerada no meu artigo do jornal Metro).

A Lusomundo, que na própria sexta feira se prontificou a esclarecer algumas imprecisões no meu texto.

E até o próprio Nuno Markl, autor da adaptação do argumento de Neil Gaiman para a versão portuguesa (como se sabe, Coraline não teve direito a distribuição de versão original no nosso país). A única pessoa que não regiu foi o próprio Neil Gaiman, o que me parece uma tremenda falta de elegância.

Vamos por partes, como diz o talhante. Comecemos pela minha insurgência. Depois de ouvir histórias de pais de crianças de 3 e 4 anos indignados com o facto de os seus filhos terem pesadelos com o filme de cinema Coraline e a Porta Secreta, classificado pela CCE para maiores de 4 anos, lancei a dúvida à Comissão: “Será este filme realmente para crianças de 4 anos?”. Mais: “Uma vez classificado o filme, o “policiamento” nas salas de cinema é rigoroso?”.

António Xavier, presidente da CCE, escreveu-me: “No caso concreto do filme Coraline, a classificação de maiores de 4 anos resultou da votação unânime de quatro membros da CCE, na sua interpretação dos critérios em vigor (disponíveis em
www.cce.org.pt) e da ausência de qualquer recurso até à data de estreia. Posso informar V.Exª que é a CCE a entidade competente para decidir de reclamações ou recursos de decisões suas e, em segunda instância, o próprio Ministro da Cultura”.

“Posso também informar que, ultrapassadas que sejam algumas tramitações jurídicas indispensáveis, nomeadamente a notificação e resposta do distribuidor, o filme vai ser reanalizado pela subcomissão de recurso da CCE. Da decisão subsequente a essa reanálise será dado conhecimento a V.Exª”.

Ficou por responder à segunda parte da questão: que responsabilidades têm as salas de cinema? Já agora, quem representa as salas de cinema em Portugal?

Embora eu não atribua “culpas” dos erros de classificação e distribuição nacional ao argumentista Neil Gaiman, Nuno Markl escreveu: "Não concordo, caro Somsen, que se atribuam culpas ao argumento do Neil Gaiman. Maiores de 4 é capaz de ser uma má classificação (maiores de 6 já me pareceria aceitável), mas quando é servido tanto entretenimento terrível para crianças, atacar um "filme de terror" - no sentido mais mágico e poético da expressão - que as trata com inteligência e sensibilidade, parece-me que é atirar ao lado!".

Concordo com a ideia de Markl de que o “entretenimento terrível” é servido indiscriminadamente aos espectacores juniores. A responsabilidade passa para os pais, que olham para a CCE como referência ou diapasão. Erro deles, claro.

As explicações da distribuidora Lusomundo, simpaticamente representada por Nuno Gonçalves e Isabel Lima, serviram para relançar o debate (foram as primeiras a ser ouvidas). Por se ter tratado de conversa informal, via telefone, assinalo de memória os tópicos: ao contrário do que escrevi, Coraline não é a primeira animação a estrear em Portugal sem qualquer versão original (ainda não sei qual foi, mas tentarei descobrir).

A opção de apenas estrear versões de Coraline dobradas, segundo a Lusomundo, tem mais a ver com política financeira que opção ideológica, uma vez que a distribuição de uma versão original 3D implicaria um acréscimo substancial no orçamento previsto para o lançamento do filme em Portugal.

A Lusomundo confirma ainda o contacto recebido pela CCE no interesse de reanalisar o estatuto e classificação de Coraline e a Porta Secreta, mas reconhece a sua incapacidade para alterar essa classificação sem a CCE. Chegarão a tempo? Eu creio que não. Mas antes tarde do que nunca. Até porque depois do cinema vem o DVD. E quando o filme entrar em casa dos pais dessas crianças, que pais serão esses: os genuínos ou os alternativos, com botões nos olhos?

2 comentários:

Misato disse...

tiveste os inúmeros filmes da Disney e afins que estrearam durante todos os anos 70 e 80 em Portugal com as márávilhosás verrsões brásileirás. aliás a "Pequena Sereia" foi talvez o último filme da Disney que não teve direito a versão original. só a partir dos anos 90 é que começámos a ter acesso às versões originais... memória curta essa ein?

Carla Maia de Almeida disse...

Penso que a raiz do problema está no facto de não ter sido feita a distribuição da versão original, criando a ilusão de que o filme era só "para crianças". Mesmo sem o ter visto (espero pela versão em DVD), não tenho dúvidas de que Neil Gaiman não é um autor que escreve para crianças muito pequenas. Não sou a favor da classificação dos livros por idades (outra polémica...), com rótulos autocolantes, mas uma sugestão/recomendação na contracapa também não me choca. Eu diria que, de uma forma geral, Neil Gaiman escreve para pré-adolescentes, adolescentes e adultos. Nitidamente, o filme foi mal recomendado pelas entidades competentes. Antes dos 8/9 anos será difícil aceder àquele imaginário sombrio e tortuoso - e, sim, também "mágico e poético". O medo é uma emoção demasiado importante para ser ignorada, e as crianças (não as de 3 ou 4 anos, claro) também se sentem atraídas por ele. Não há nada de errado nisso. Compete aos pais e aos adultos em geral ajudá-las na leitura desses filmes e livros que "resolvem" as angústias do mundo sem se esqueceram de providenciar um final reconfortante. Deixo, como sugestão de leitura, a "Psicanálise dos Contos de Fadas", de Bruno Bettelheim. Um clássico.