sexta-feira, 13 de março de 2009

Os Espectáculos


Aguardo ansiosamente a resposta para uma questão que deixei colocada por email no site da Comissão de Classificação de Espectáculos (CCE), a entidade do Ministério da Cultura que supostamente “classifica” os espectáculos em exibição no país. Classifica como? Determinando, entre outras coisas, que grupos etários estão autorizados a assistir aos filmes em estreia semanal.

Lembram-se de antigamente ser vetada a entrada a quem quisesse assistir a um filme para “maiores de 18”? Isso era antigamente, agora as “idades” já não têm idade. Onde foi que se perdeu a noção da realidade? Pode ter sido no dia em que decidimos tratar as crianças como adultos. De certeza que foi na altura em que passámos a tratar os nossos filhos como consumidores.

Acontece que um dos espectáculos recentemente estreados, o filme Coraline e a Porta Secreta, de Henry Selick, recebeu da CCE o suspeito estatuto de “filme para maiores de 4 anos”. A pergunta que enviei para o site questionava sobre “os critérios utilizados pela CCE para estabelecer a classificação etária dos filmes de animação estreados em Portugal, e de que forma essa classificação é assegurada nas salas de cinema”.

O que quis saber é se a CCE tem um polícia a impedir uma criança de 3 anos de entrar num filme para maiores de 4 ou se existe alguém no cinema que peça o bilhete de identidade a um puto charila de 5 anos que queira ver o novo filme em que a Sharon Stone faz sexo oral a um polícia (não se assustem, sou eu a divagar).

O que se passa? Passa-se que Coraline e a Porta Secreta não é um filme para crianças – quanto mais será para pré-adolescentes. Passa-se que os pais estarão a ser iludidos por uma classificação falaciosa se decidem levar tranquilamente uma criança de 5 anos a ver Coraline.

Passa-se que os pais não percebem o que se passa quando os seus filhos acordam a meio da noite com pesadelos protagonizados por pais alternativos e adultos com botões nos olhos (a culpa é do argumento de Neil Gaiman que Nuno Markl adaptou).

Passa-se que ninguém sabe que isto se passa por aí, uma vez que os críticos (eu incluído) continuam mais interessados em discutir a ideologia de Quem Quer Ser Bilionário. Passa-se que a CCE não responde aos mails dos jornalistas, que os cinemas não restringem públicos nem idades e que o espectáculo deve sempre continuar.

Há aqui outro dado que ajuda à perversão do espectáculo em si, que é o facto de, creio que pela primeira vez, um filme de animação estrear em Portugal apenas com versões dobradas. Ao excluir qualquer versão original, a distribuidora Lusomundo está a informar o público que o filme é “apenas” para crianças.

Excluíndo os adultos por defeito não resolve o problema: os adultos mais bem informados irão ver a versão original pirateada na internet. Os pais menos bem informados continuarão a acreditar nas classificações idóneas da CCE e no coelhinho da Páscoa.
(Publicado no jornal METRO de 13 Março 2009)

5 comentários:

Misato disse...

quando vejo, ontem na Monstra, pais (supostamente mais esclarecidos) entrar na Sala 1 do S. Jorge com crianças de cerca de 6-7 pela mão... já não me admira que a CCE faça o que faz, já que provavelmente o faz por pura pressão económica das distribuidoras.

somos um país de gente preconceituosa que, apesar de moerem o juízo às televisões por passarem este ou aquele desenho animado mais violento (muitas vezes mal programados), continuam a achar que "desenhos animados são coisa de crianças"...

não há remédio para a ignorância!

Misato disse...

PS - a sessão da Monstra não era para crianças... mas era animação.

Carla Maia de Almeida disse...

Não tenho 100% de certeza, mas penso que o "Coraline" esteve (está?) no Alvaláxia e no Colombo em versão original. Dois cinemas que não frequento, e daí que também não o tenha visto. Não percebo é por que razão as salas não o podem exibir nas duas versões, original e dobrada, em horários diferentes. Sai mais caro, é isso? Enfim, o que parece é que esta gente da CCE não vê os filmes...

Patrícia Campos disse...

olá Somsen. A família viu ontem o Coraline em 3D - as crianças com 8 e 5 anos adoraram. De regresso a casa decidimos que aquele é um filme de terror para crianças (por sugestão da Frederica). E ficamos contentes porque por vezes ficamos fartos de principes, princesas, super heróis e pequenos animais atmados em gente...

Miguel Somsen disse...

Obrigado pelas vossas reacções.
Uma vez que também recebi reacções da Lusomundo, CCE e até Nuno Markl, conto fazer rapidamente um post de actualização sobre o tema. Fica a informação concreta: nunca houve realmente uma versão original de Coraline a estrear em Portugal.