quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Eva Amurri: a filha de Susan Sarandon sai à mãe


Eva Amurri tinha apenas três anos quando pela primeira vez apareceu nua na imprensa: o famigerado Robert Mapplethorpe fotografou-a em “trajes menores” em 1988 (sozinha e com a mãe, Susan Sarandon) e ainda hoje os retratos (e a sua mãe) são considerados arte. Com 23 anos, Eva já tem um longo passado à sua frente. Estará à altura do património ou segue para matrimónio?

Kate Winslet, na Vanity Fair

O problema de se escrever muito, talvez demasiado, é que se passa a ler menos, exageradamente pouco. E como tenho andado aqui fechado, nem tinha reparado na última edição da Vanity Fair com Kate Winslet a fazer de Catherine Deneuve. É caso para dizer: Deneuve não teria ficado melhor.

2012, de Roland Emmerich

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Estrela da Amadora


Imaginemos uma situação altamente improvável: o Benfica deixava de pagar os salários aos seus jogadores. Atrasava um mês, depois o presidente prometia pagar tudo até ao final da semana, mas não conseguia cumprir a sua honra. Ficaria tudo como dantes?

Entretanto o treinador, em protesto, batia com a porta, ia à sua vida. O clube sem dinheiro continuava a participar nas competições oficiais. Os jogadores, esses, desapoiados e desguarnecidos, faziam a única coisa que sabem e podem fazer: jogar.

Imaginemos essa situação improvável num país civilizado. Se o Aimar, se o Reyes, se o Cardozo não recebessem salários, o país parava. O presidente falhava as promessas? Algum banco se chegaria à frente para resolver a crise do Benfica. O Secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, haveria decerto de interromper as suas férias antecipadas (isto é ficção, não me levem muito a sério) para solucionar a questão "antes do Natal". Seria, citando as manchetes de jornais fictícios, "uma pouca vergonha!".

Como se sabe, não é o Benfica que tem salários em atraso, é o modesto Estrela da Amadora. Os jogadores não são pagos, e alguém faz alguma coisa por eles? Interromper campeonato em protesto, punir o clube, denunciar tudo à UEFA? Nada. Neste país sem nome discute-se os No Name Boys...

Este ano vamos à Molvânia!


Sabe aquele género de pessoas que raramente se diverte nas viagens mas que depois aparece com histórias mirabolantes e divertidíssimas sobre os novos destinos que conheceu? Agora, você também pode impressioná-las. Como? Diga que vai viajar para um país que, pura e simplesmente, não existe.

Imagine estes dois casos: Molvânia, na Europa alpina, e Phaic Tan, na Indochina. Nenhum dos países existe realmente, mas qualquer um deles tem disponível guias de viagens com informação essencial e detalhada sobre a História, geografia, língua, gastronomia, costumes, turismo e as canções desqualificadas do Eurofestival da Canção. Confira tudo no site respectivo.


MOLVÂNIA
História: em 721 AC, o primeiro Príncipe da Molvânia conquistou a Prússia, a Alemanha e a Escandinávia aos 12 anos. O império durou apenas umas semanas. O miúdo já morreu mas vive para sempre.
Língua: o molvano tem quatro géneros - masculino, feminino, neutro e um género especial para dar nome aos queijos.
Desporto: o Estádio de Lutenblag foi construído para organizar o Mundial de Futebol de 1994. Hoje, o principal atractivo são os enforcamentos públicos.
Gastronomia: consta que o magnata da beterraba transgénica verde, Jerko Guglob III, vai comprar o Leeds United.

PHAIC TAN
História: sempre foi um país associado a violência, pobreza e um abuso nos preços do duty free. Agora, só os senhorios têm acesso à tortura.
Geografia: dizem que a praia de Zou Kow Bow tem a areia mais branca do planeta. Uma coincidência rara do aquecimento global com um acidente envolvendo um camião que transportava lexívia.
Desporto: apesar de ter o maior índice de amputados do mundo, nunca ganhou uma medalha nos Jogos Paralímpicos.
Turismo: a hotelaria garante despedimentos diários de pessoal para assegurar a frescura nos serviços.
Gastronomia: alguns cães ainda têm raiva. Evite comê-los.

OS OUTROS
Se pensa que o mundo se esgota na sua esquina, está muito enganado. Não estará interessado em viajar para outros países remotos?

Pfaffland
Um remoto território sub-ártico que mistura a sauna com a fauna. Tem sol da meia noite e do meio dia, 365 dias por ano. À tarde também.

Costa del Porn
Enclave ibérico composto exclusivamente por hotéis, pubs ingleses e música lounge. Muito remoto.

Gastronesia
Arquipélago remoto, algures ali pelo sudeste asiático. Parece que as pessoas confundem Ásia com azia: o excessivo tempero da gastronomia local leva a que a maioria dos visitantes morra afogada no seu suor.

Sherpastan
Remoto reino montanhoso, entre a antiga União Soviética e a Nova Zelândia. Dizem que é de prender a respiração (para sempre)

San Sombrero
Antigo protectorado espanhol, cuja capital é Cucaracha City. Tal como Lisboa, tem muitas baratas. A comida não é cara nem remota.

Takki Tikki
Ilha francófona do Pacífico sul, ideal para amantes de sol, antigos cientistas nucleares e tartarugas malhadas. O melhor cartão de visita é o facto de Gauguin não ter pintado aí nenhum dos seus remotos quadros.

Bongoswana
Antiga colónia belga, situada na parte mais remota do Mapa Cor de Rosa, em África. A capital é Coup d’État. Pelo menos era, até ontem.

Ilhas Tofu
Duas ilhas absolutamente iguais no arquipélago de Seitan. Ideal para mergulhadores, principalmente os que saibam boiar. De todo o mundo convergem caçadores de ostras vegetarianas, à procura de pérolas de plástico. A maioria parte deles não volta à superfície.

Moustachistan
Antiga República soviética onde todos os homens têm bigodes, incluíndo as mulheres. Mantém rivalidade ancestral com o remoto Estado de Kalashnikov, mas os acordos de paz recentes permitiram desarmar ambas as nações. Agora, o exército só utiliza fisgas.

Robert McKee: eu fui!


Pedi a testemunhas oculares que me relatassem alguns dos pormenores sórdidos sobre o seminário-foguete Story, de Robert McKee, realizado no passado fim de semana em Lisboa (ao qual eu não estive presente). O Nuno Noivo foi um dos que se prontificou a responder. Agradeço sobejamente o seu post.

"“Já mudei a minha curta toda na cabeça!” dizia um rapaz a um amigo, enquanto acendia o cigarro na passada exacta do interior para o exterior do edifício, num dos intervalos do Dia 1. “Isto é horrível! Escrever é o meu trabalho e agora tenho a sensação que o faço mal.” Foram mais ou menos estas as palavras que ouvi, num dos intervalos do Dia 3, o último. O primeiro testemunho ilustra a epifania espelhada nalguns rostos durante e depois do curso. O segundo, uma consciencialização mais profissional da importância daqueles três intensivos dias. Ambos asseguram para o futuro, mais esperança e maior qualificação.


"Sem cair no exagero dos supracitados, compreensível pela qualidade e quantidade do que se aprendeu, a conclusão básica que posso retirar é de que devia ter feito o Story há mais tempo. Digamos que o custo de oportunidade do período iniciado nesse “há mais tempo” e que terminou neste fim-de-semana, é irremediavelmente grande.

"Então o que há de tão especial em Mckee que leva a que argumentistas, jornalistas, criativos, técnicos, realizadores, actores e curiosos se juntem num auditório? É simples: that creep fuckin’ knows it.

"São três dias com um horário rígido das 9h às 20h30 a ouvir alguém que realmente sabe e consegue passar todo esse conhecimento com uma impressionante eficiência, apesar de alguns laivos de cretinice.

“O sucesso do curso ao longo de mais de duas décadas está sem dúvida no conteúdo, na forma como está estruturado e no dom de comunicação de Mckee ([o realizador Spike] Jonze acertou em cheio, porque de perfil parece mesmo que temos o Brian Cox no palco). E esqueçam Hollywood e o cinema de autor, aqui estamos a falar de storytelling, ideias, narrativa e disciplina. No compromisso e na capacidade de contarmos uma história. Não é uma fórmula, diz ele, será mais uma coluna vertebral, digo eu.

"Agora resta esperar para vermos o resultado prático em Portugal, sem dúvida mais complicado na indústria cinematográfica, por defeito, do que na ficção televisiva e na publicidade. Já estou a imaginar os membros do júri do ICA num dos próximos “concursos” de mãos na cabeça, indignados com a lata desta gente desconhecida a concorrer com argumentos com cabeça, tronco e membros. A ordem não terá que ser necessariamente esta.

"Parece que o McKee a semana passada viu o Call Girl, o Meu Querido Mês de Agosto, o Juventude em Marcha e o Alice, o único que o terá impressionado, sem ser pela negativa. Com as constantes referências elogiosas ao filme, talvez o Nuno Lopes tenha saído do Seminário mais feliz do que se confessou há dias num semanário".

Obrigado, Nuno.

O novo VW Scirocco em Lisboa

Belíssimo filme de publicidade para o novo Volkswagen Scirocco realizado em Lisboa. É engraçado pelo debate que também poderá colocar: afinal, em vez do cliché da cidade de natureza luminosa, Lisboa é filmada como se fosse um policial na Cornualha (é uma forma da VW se vingar dos políticos portugueses que, durante anos, dificultaram a localização da Autoeuropa nos sinais de trânsito das estradas a caminho de Palmela).

Também acho curioso o facto de se tratar de um automóvel cujo nome é um vento que invade Veneza (nós temos o Zéfiro). Mas pelo menos não se vêem os contentores...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Derby da semana: Sousa Tavares vs Sá Fernandes

Neste momento, discute-se os contentores de Alcântara no Prós e Contras da RTP1. Miguel Sousa Tavares é contra, Sá Fernandes é a favor. Sousa Tavares faz de good cop, Sá Fernandes de bad cop. Enquanto Sousa Tavares rosna, Sá Fernandes aguça as unhas.

Quando o público aplaude o "bonzinho", Sá Fernandes deixa de se ouvir, e depois a sua explicação soa a demagogia. Para todos aqueles que pensaram que ele poderia ser uma espécie de cavalo de Tróia na Câmara Municipal, assistir a este debate torna-se penoso. O nosso homem do Bloco parece orgulhosamente Sá.

Custa-me imenso aderir à unanimidade, mas a razão estará sempre do lado de Sousa Tavares: esta cidade não quer contentores em Alcântara. Infelizmente ainda ninguém parou para pensar no custo que seria uma cidade sem zona portuária. Lisboa seria outra - e nós também.

Antena 2: Vias de Facto

O meu irmão Paulo Somsen tem uma hora de airplay de grande qualidade na transição de domingo para 2ª feira, na Antena 2, mas como eu estou sempre a ver o Domingo Desportivo a essa hora só consigo fazer streaming da emissão de rádio no dia seguinte. Ao contrário do que se pensa, a hora zero da semana tem mais valor do que se pensa.

Os 100 Melhores Restaurantes de 2008?


Não sei qual a política da revista Sábado em relação aos seus suplementos ocasionais, como é o caso do Guia do 100 Melhores Restaurantes de 2008, oferecido com a edição da semana passada. Mas gostaria de pensar que a oferta do suculento fascículo ("revista para guardar", dizem eles) não morre com a edição da revista que sairá esta semana.

De qualquer forma, e contando com o pior, creio que seria urgente apanhar a Sábado na rua AGORA e guardar o Guia dos Restaurantes para consumo natalício em lume brando. Trata-se de um trabalho exemplar (de João Gobern, Edgardo Pacheco, Nuno Pires e Fernando Melo) que reune os melhores restaurantes do país em dez categorias particulares: carne vaca, carne porco, peixe, caça, marisco, japonês, italiano, saladas, sobremesas e vinhos.

Há um ano, no Corta Fitas, o Pedro Correia fez de mau da fita, publicando um post sobre algumas das inevitáveis lacunas da edição do Guia dos Melhores Restaurantes 2007. Este ano, e caso ninguém se ofereça, eu poderei ser o algoz. Nada de pânico, não tenho muito a acrescentar. Mas, se eu mandasse na edição 2008 (um dia...), nunca deixaria sair para a rua um guia sem os links para os sites dos restaurantes destacados. Falha grave.

Também nunca deixaria de fora categorias como "vegetariano" ou "ambiente", e restaurantes como o Bocca e o Luca. Bem sei, talvez o "ambiente" esteja, como diria George W. Bush, "misunderestimated". Mas continua a ser, para mim, uma das primeiras razões para visitar um restaurante. A segunda razão, a partir de agora, passa a ser: "E vocês aparecem no Guia da Sábado?".

Volta ao Mundo: Especial Aniversário

Já está à venda o último "volume" da revista Volta ao Mundo, edição especial de aniversário. A capa (como a revista) é multidimensional. Mas uma vez que a Volta ao Mundo ainda não tem página na internet, teremos de ser nós a recriar a sua second life por aqui. Parabéns a todos os que fizeram a revista sair do lugar sem nunca repetir o mesmo caminho.

domingo, 16 de novembro de 2008

Directo RTP1: Sporting 0-1 Leixões


Depois do golo do Leixões em Alvalade, aos 66 minutos, a emissão da RTP1 nunca mais voltou a ser a mesma. O verde passou a negro, ficou a ouvir-se os comentários, depois passou para esta espécie de mira técnica, com os minutos a correrem e já sem som, finalmente voltaram as imagens sem som e também sem golos do Sporting, que perdeu o jogo em casa. Estes bebés de Matosinhos têm a escola toda!

sábado, 15 de novembro de 2008

SIC: Episódio Especial


Não compreendo esta mania da SIC em fazer programas especiais sobre... os seus próprios programas. Há 20 anos, quando a RTP apresentava o Cartaz TV e antecipava a sua programação, a coisa até fazia algum sentido. Tratava-se de promover o canal.

Mas o que a SIC faz agora, num espaço chamado Espisódio Especial, não é antecipar a sua programação, é recuperar as histórias da sua ficção nacional (duas novelas nacionais, algumas brasileiras) explicando os seus dramas ficcionados com reportagens aos actores e intervenientes nos bastidores. Ou seja, a SIC retira a ficção da ficção e convida-a a visitar a realidade, hipotecando todos aqueles que, por opção própria, aderiram à sua programação... ficcionada.

A ficção (ou fixação) desta semana era o beijo "lésbico" de Diana Chaves e Ana Guiomar para a novela Podia Acabar o Mundo. Talvez tenha sido muito bonito na novela, mas a SIC preferiu transformá-lo num acontecimento. Porque não deixar a ficção viver por si? Por que razão explicar tudo? A SIC ao fim de semana trata de eliminar o mistério da ficção criada durante a semana. Quando é precisamente o contrário daquilo que um fim de semana (ou a SIC) deveriam servir para fazer...

Robert McKee em Lisboa



Uma amiga minha foi assistir ao seminário do guru de argumentismo em Lisboa e a única coisa que me enviou foram estas fotografias...


sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Rui Reininho: antes a solo (do que mal acompanhado)

Sempre achei que o futuro para a carreira de Rui Reininho estaria nas mãos de Armando Teixeira (Balla, Bulllet). Há anos que se percebia a divisão ideológica dentro dos GNR, com Reininho a propôr uma via mais melódica e performática, do género Popless, que os restantes membros não conseguiam garantir ou encaixar.

A sorte de Reininho foi ter caído nas graças de Armando Teixeira, que tem uma espécie de toque de Midas da pop, transformando em luxo aquilo que originariamente poderia ser lixo.

Segundo o Diário de Notícias de hoje, o novo álbum de Reininho chama-se Companhia da Índias, sai a 2 de Dezembro, e tem ainda as colaborações de Rodrigo Leão, Paulo Furtado, Margarida Pinto (Coldfinger), João Pedro Coimbra (Mesa) e Alexandre Soares (um dos originais dos GNR). A mim parecem-me talvez "especiarias" a mais, mas o Natal quer-se assim, doce e condimentado.

Aimee Mann: em Portugal e no mundo


O Nuno Figueiredo e eu partilhamos obsessão por Aimee Mann: ambos sabemos o quão irrelevantes eram os Til Tuesday nos anos 80 e o bem que fez à Aimee Mann ter conseguido criar uma carreira a solo. O filme Magnolia e a publicidade nacional ao tema Wise Up, ambos conseguidos à custa do extraordinário álbum Bachelor nº 1, fizeram o resto. A última digressão de Aimee Mann passou novamente por Portugal, onde a banda criou mais um episódio para o vlog de campanha.

Uma boa desculpa para recuperar a espantosa cena de abertura de Magnolia.




Brasil x Portugal: Quaresma de fora


Quaresma não tem lugar na selecção? Eu acho que Quaresma não tem lugar em lado algum, excepto talvez nos ballets russes ou no cirque du soleil. A habilidade e meia dúzia de trivelas podem resolver alguns derbys e até garantem a emigração esperada para Itália. Mas pelos vistos não chegam para a selecção de Queiroz (que o deixou de fora na convocatória para o amigável Brasil x Portugal, quarta feira à meia noite na TVI).

O Diário de Notícias escreve em manchete que o "culpado" pela saída de Quaresma da selecção foi César Peixoto, em topo de forma num Braga irregularíssimo. É a sua primeira chamada à selecção A. Outra surpresa: o regresso de Tiago, que fez um bom jogo pela Juventus na semana passada (depois de imensos horríveis). Alguém tem visto o que Tiago anda a fazer? Só se for pela SportTV. Eu sei que o Tiago joga numa posição de meio-campo que pode ser considerada como "invisível". Mas isso não justifica uma carreira tão low profile e entediante como a sua.

A última novidade da selecção chama-se Rolando, o defesa central que (enquanto jogava no Belenenses, e mesmo marcando golos ao FC Porto) todos pensavam ser brasileiro. Agora ao serviço dos dragões, passa a ser internacional. Eu acho que ele é um dos melhores em Portugal, mesmo quando jogava na equipa "invisível" do Belenenses. No fundo é tudo uma questão de olheiros e respectivas perspectivas.

?


Hoje à noite no Lux, em Lisboa, vai haver uma baile de máscaras. O simpático convite enviado pela discoteca para o seu público selecto (isto é: eu) apresenta um enorme ponto de interrogação vermelho sobre fundo preto. Na outra face do convite, o rosto denunciador dos factos e respectiva ficção: “Quem és tu? Quem gostavas de ser? Que fantasia vestirias para este momento? Inventa um personagem”.

Uma vez que não conto estar presente no baile, deixei indicações ao mestre de cerimónias do Lux para consentir a entrada a todos aqueles que se apresentem disfarçados de “miguel somsen” à porta. A liberdade da criação é vossa. Devo no entanto avisar-vos que, apesar da minha beleza apolínea e sensual linguagem de corpo, estou neste momento transformado num tipo amargo, cínico, cabisbaixo e rancoroso. Logo, pouco dado a festas. Sendo assim, bastará chegar à porta em avançado estado de pessimismo para ser convidado pelo porteiro a entrar.

Mas que azia é esta? Eu próprio não sei. Em menos de 72 horas, tive duas razões para celebrar: a minha filha completou o seu primeiro ano de vida e, dois dias depois, Barack Obama foi eleito presidente da América e do mundo livre. Gosto desta terminologia orgânica que nos leva a acreditar num novo presidente americano capaz de suportar o fardo, não só da “América” como do “mundo livre” (ou o que resta dele). Mas alguém foi livre antes de Obama? Com a histeria que entretanto se viu, seria de pensar que não.


Na verdade, olhamos para os oito anos da administração Bush como um agrilhoamento submisso, a Europa sujeita aos caprichos de um homem medíocre e monossilábico, e isso impediu-nos de olhar ao espelho para constatar a nossa esquálida figura sob a sombra de Bush. Será preciso um político negro para nos libertar da “escravatura” a que nos fomos sujeitando em tempos de abundância?

É ridículo que seja Obama a recuperar nos europeus a estúpida responsabilidade ancestral que é herdeira do “fardo do homem branco”, uma espécie de máscara que a tradição imperial nos obrigou a usar em nome da honra, da conquista e das fronteiras. Mas é um risco que o mundo corre, o de inesperadamente a Europa voltar a ter as suas responsabilidades. É como se Bush nos tivesse saqueado a alma e agora, em tempos de paz, seja obrigado a devolvê-la, como uma peça de arte roubada durante a guerra.

E a partir de agora, como é: seremos todos Obamas? A mim basta-me pensar que agora passa a haver uma alternativa à actividade ideológica mais banal e mundana da última década – que é ser anti-Bush e, por consequência, anti-americano. O que Obama não conseguir garantir, espero que a minha filha obtenha por ela própria. A bem da humanidade, da nossa humildade - e do meu estômago.

(Crónica do METRO de 14 de Novembro 2008)

Frase do dia

"Now that Barack Obama has been elected president, producers in Hollywood say they think America is now ready for a black James Bond and a black Wonder Woman. Isn't that cool? Yeah, hell, America may even be ready for a black Michael Jackson." (Conan O'Brien)

Estoril Film Festival 08


Há um ano, a estreia do Estoril Film Festival (para os leigos, é o Festival de Paulo Branco) não teve o sucesso que tanto se esperava. Fui a meia dúzia de sessões de grandes ante-estreias no Casino Estoril que tinham apenas meia-casa de público. Cronenberg, DePalma, e ninguém quer ver? Consta-me que as salas comerciais de Cascais, onde pude ver o filme de Coppola, Youth Without Youth, tiveram melhor receptividade. Conclusão? Casino de Estoril vazio, cinemas em Cascais cheios. Isso, creio eu, diz tudo. Será que a organização apanhou a mensagem?

Hoje, a edição 2008 do Festival de Cinema do Estoril tem a sua gala de abertura no Casino. Ainda ontem, foi confirmada a presença à última da hora de Bernardo Bertolucci, o que é notável, tendo em conta o estado de saúde do realizador italiano. Michael Pitt e Louis Garrel, a dupla amorosa de The Dreamers (de Bertolucci), também visitam o Estoril. Mais nomes? "Stephen Frears, Valeria Bruni-Tedeschi, Catherine Deneuve, Paul Auster, J.M. Coetzee, Mathieu Amalric, François-Marie Banier, entre muitas outras novidades".

Não se pode ser indiferente a um festival de cinema tão bem composto como este. A programação é excelente, serão exibidas ante-estreias de Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen), Rachel Getting Married (Jonathan Demme), Four Nights With Anna (Jerzy Skolimowski) ou Hurt Locker (Kathryn Bigelow). E o Festival mostrou ainda uma genica suplementar ao garantir homenagem de carreira a Paul Newman.

O que poderá faltar? Público. De um ano para o outro nada na comunicação do Festival do Estoril mudou. E, mais uma vez, a imagem projectada cá para fora é a de que se trata de um "festival de estrelas" e não de acesso público. Não se pode dissociar a actividade cultural da Câmara de Cascais e Casino Estoril (sponsors do festival) à Moda Lisboa, que, como toda a gente sabe, não é aberta ao público. Por isso, é inevitável que o espectador corra para as salas comerciais onde os filmes do Festival do Estoril irão ser exibidos, em vez de garantir dinâmica às salas do Casino Estoril, onde o festival se concentra. O espectador médio não se imagina a partilhar espaço com as grandes estrelas de cinema que vêm ao Estoril. E pelos vistos, mais uma vez, o próprio Festival também não assistirá a esse cruzamento de culturas.

Uma nota final para o site, que está cheio de erros e não tem uma única imagem que a imprensa (e os bloggers) possam utilizar. A alternativa vídeo do Festival do Estoril está nos blogs da sapo. Consultem.